Hair

Propagandas de xampu. Mulheres agitadas saindo para o trabalho, deixando a cabeleira hidratada voar ao vento. No café da manhã, jogam as madeixas de um lado para o outro, fios voando por cima do pão, da manteiga. Os filhos olham sem entender, com um muxoxo.
– Mããããããnhêêêêê! Tem cabelo no meu cereaaaaaal!
– Sim, mas é uma cabelo liso e sem pontas!

Sobre a inerente superioridade das artes visuais

Tenho certeza que vários já pensaram nisso, e não tenho medo de apontar a pintura, a escultura e o desenho como formas superiores e mais humanas de arte, pelo simples fato de todas respeitarem a individualidade do espectador. Você vê quando quer, e basta um virar de rosto para apagar a visão daquela pintura brega de um cavalo no pasto.

Já a música não respeita barreiras: ela destroça pessoas com a mesma facilidade que as empolga. Não adianta, aquele axé vai encontrar um caminho da caixa de som ao seu ouvido atravessando o ar, dois andares, as janelas, a parede, a porta, o travesseiro e o tampão de borracha que você tenta desesperadamente interpor na busca do silêncio.

Do mesmo modo o cinema, a televisão e a videoarte. Por precisarem do som para funcionar (nem tanto para a videoarte) ficam tão más quanto a música, e muito mais cruéis nas mãos de pessoas (e uso essa palavra com certa liberdade poética) que precisam mostrar o novo suporte do meio: um Home Theater/Microsystem da Aiwa/Pioneer/CCE/Sharp com 300 GigaWatts de potência. Essas criaturas pegaram a idéia do “se não sabe fazer bem, faça grande” e deram um novo sentido a ela.

A superioridade social da pintura é óbvia. Muito já gritaram “Abaixo o som aí, ô”. Ninguém jamais disse “larga esse pincel aí, ô, tenho que trabalhar amanhã”. Imagine pessoas se contorcendo na cama porque o vizinho aplicou pela terceira vez o filtro Clouds do Photoshop. Pessoas na biblioteca irritadas porque a atendente acabou de comprar uma tela abstrata vendida no shopping por cem reais e deixou ela no carro. Olhos de visitas sangrando porque elas entraram na sala e viram aquele poster do Salvador Dali sobre o sofá. Não acontece, não acontece.

Ballardismo

Falando em Burnout, nada deve ser melhor do que passar um dia em Paradise City. Pular de um penhasco a 200 por hora, cair e voltar à pista como se nada tivesse acontecido. Fechar o carro que tenta me ultrapassar para ser arremessado contra uma parede, voltando imediatamente ao cruzamento depois do ocorrido. O trânsito com certeza seria mais interessante. Imagine um casal parado no sinal vendo um Mustang verde capotando espetacularmente à sua frente, o capô arrastando ao longo da rua, pedaços voando para todos os lados.

– Amor?

– Hm?

– Aquela não era a Judite?

– Hã… sim, era sim. Não sabia que ela tinha aprendido a cambalhota.

– Até que enfim! Era eu quem fazia isso quando ia de carona. Sabe quanto tempo nós levávamos para entrar no cruzamento seu eu deixasse ela dirigindo?

– Imagino. Agora se segura que vem um descontrolado logo atrás da gente.

– Weeeee!

Sim, sim. Paradise City seria um bom lugar para se viver.

Tédio

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Não precisa recarregar a página, a imagem está aí. Aí em cima. Logo acima dessa linha. Viu agora? Esse espaço em branco*. É uma pintura de Cy Twombly. Sacou a profundidade? O conceito?

Nem eu. E nem quero. A verdade é que hoje é legalzinho falar qualquer coisa de tudo, principalmente em arte. Meia dúzia de frases quase coerentes servem para explicar e validar qualquer coisa.

– Prove!

Tudo bem. Então, a pintura acima é niilista: busca o aniquilamento da condição humana pela recusa em ater-se à representação de sua figura, relevando apenas o ser. É uma citação direta a 4’33” de John Cage em sua tensão pós-apocalíptica surgida depois da explosão da primeira bomba atômica.

– Uau!

Obrigado, obrigado. Não é difícil, só requer que você pare de dançar pagode e vá ler um pouco. E nem é preciso entender o que lê, apenas saber pegar umas palavras e enumerar. Tenho certeza de que uma geração inteira de críticos e curadores foi feita em cima disso, essas bestas.

Pensando bem há um conceito sim, talvez a base de quase toda a arte moderna: o tédio, que se manifesta infinitamente nesses trabalhos. O artista conceitual deve ser uma pessoa profundamente entediada que se resignou a isso.

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Arthur Danto disse que chegamos ao fim da história da arte. Na verdade, o que ele quis dizer é que não existem mais movimentos, ou “ismos”, como existia antigamente: impressionismo, cubismo, fauvismo e por aí vai. Eu faço uma vênia e discordo respeitosamente. Vivemos um ismo, sim, que começou logo após a Pop Art. Chamo carinhosamente de Vulgarismo ou Banalismo, e é essencialmente um Dadaísmo apático e entediado que pega tampinhas de garrafa e as cola na parede da galeria.

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E por quê precisamos de texto afinal? A boa arte devia ser mais uma apreciação do que criada para sustentar um discurso. Aliás, se sua obra precisa de um discurso para ser vista você já fracassou. Pegue seu quadro e use-o para assustar criancinhas no halloween.

– Eu sou a inconsciência coletiva da luta de classes! Waaaaaaaah!

– Manhêêêêêêêêêêê! Faz ele parar!

– Calma filho, é só um artista plástico.

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Aquelas criaturas que foram pintar o Teatro Nacional. Banalistas que viram as pichações, deram um tapão na testa falando “porque não pensei nisso antes?” e foram imitar os outros. Artista brasiliense não consegue ser original nem para protestar.

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Banalistas gostam de Tribalistas? Não tinha pensado nisso. Hum, pode ser, pode ser.

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Como assim, que sou eu para falar desse jeito? Sou rei de Nihitélia, nascido no Renascimento e criado à base de Toddynho. Kneel before Zod!

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Para finalizar, um pouco de coisas que não são tediosas:
Ray Caesar
Mel Kadel
Leonardo
Burnout Paradise

* Certo, na verdade é um JPG em branco. Clique aqui para ver o quadro na galeria.

Hello world!

Welcome to WordPress. This is your first post. Edit or delete it, then start writing! Wobbitywobbitybu. O rato roeu a roupa do rei de Roma. Um tigre, dois tigres, trê tigres tristonhos tremendo no trigo.

Alô. Som? Ok, nem lembro da última vez que mantive esse blog online. 2012? Por aí. Primeiro como Yell, depois como Pangea Box, Pangea Blues, pangeabox.net, e agora sob o nome deste que vos fala como uma vozinha insistente dentro de sua cabeça ao ler isso daqui.

Então senta direito e pega o copo. Ergo um brinde à volta deste pândego pernóstico que vem para deleitar mais uma vez, sabe-se lá por quanto tempo mais. Salut!

Tragam um pouco da boa e velha ultra-violência

Às vezes dá vontade de sair chutando tudo. De enfiar a cabeça do Duchamp na privada, de meter uma chinelada na cara de Mondrian, de cuspir nos pincéis da Tarsila, de chutar a canela do Damien Hirst e enfiar uma caneta no ouvido de artistas brasilienses em geral, isso até lembrar de ouvir John Cage e começar a acalmar… apenas para ser interrompido pelo fulano que me mostra um alfinete de segurança espetado num guardanapo dobrado e me dizer que aquilo é arte, reiniciando o ciclo.